YORUBÁ: Raiz das religiões afro-brasileiras
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A religião YORUBÁ apresenta uma profunda sabedoria para conexão com as forças divinas, com a natureza e com os nossos ancestrais. Chegou ao Brasil junto com os escravizados africanos e foi se adaptando aos nossos costumes e práticas, sendo o fundamento para diversas religiões chamadas afro-brasileiras como o Candomblé, a Umbanda, o Tambor de Minas, o Batuque e outras.

O povo Yorubá
O povo Yorubá é originário do sudoeste da Nigéria, de partes do Benin e do Togo, todos na África Ocidental. Estima-se 20 milhões de Yorubás no início do séc. XXI. A maioria dos homens hoje são agricultores e os outros artesãos ou comerciantes. São considerados os artesãos mais habilidosos e produtivos da África. As mulheres dedicam-se à produção de cestos, à fiação do algodão e ao tingimento. Estima-se que hoje cerca de 20% dos yorubás pratiquem a religião tradicional dos ancestrais.

A religião Yorubá
Estudos mostram que o povo Yorubá não exercia práticas espiritualistas como uma "religião", se comparmos com os dias de hoje. Elas faziam parte do dia-a-dia, como sendo rotinas de fundo sentimental, ancestral e cultural. As "práticas religiosas" eram seu modo de vida natural. Com o tráfico de escravizados, os yorubás levaram sua sabedoria espiritual para o Caribe, Brasil, Cuba e outras regiões na América, gerando diversas formas de tradição religiosas. Essas práticas eram na época rejeitadas e, para disfarçar, os escravizados associaram as suas divindades a santos católicos (sincretismo religioso).
Desde a colonização africana, muitos yorubás se converteram ao cristianismo. Porém, as práticas yorubás continuaram pacificamente. A igreja cristã fez até concessões integrando sua programação com as celebrações indígenas.
Olodumaré (Olorum)
A base da espiritualidade Yorubá é OLODUMARÉ ou OLORUM, o Criador Supremo. Ele é o criador de todo o Universo espiritual e físico. É uma figura onipotentee não estando sujeito às restrições de gênero. OLODUMARÉ não interfere nos assuntos cotinianos da humanidade. Não possui uma iconografia, e não participa diretamente dos rituais humanos. Não há santuários ou templos em seu nome ou sacrifícios dedicados a ele.

Os Orixás
OLODUMARÉ é o criador dos ORIXÁS ou divindades yorubás. OLODUMARÉ não é adorado de forma direta pelos humanos, mas sim através dos ORIXÁS. A maioria dos ORIXÁS encarnaram como humanos e viveram na Terra, depois de terem vivido em ORUM, um dos 3 reinos reconhecidos pelos Yorubás que são: ORUN, o céu ou o reino espiritual; AYÉ, a Terra ou o mundo físico, e o REINO DOS ANCESTRAIS. Os ORIXÁS são seres divinos personificados que caracterizam os diferentes aspectos da energia de OLODUMARÉ. Estes aspectos visam a manutenção do EQUILÍBRIO UNIVERSAL. Há uma relação muito forte dos ORIXÁS com as forças da natureza e com o cotidiano da humanidade. Os ORIXÁS são os intermediários entre os homens, o Criador Supremo, e o restante do mundo divino. Todos os ORIXÁS são tratados pela religião como possuidores das mesmas qualidades, defeitos e contradições dos seres humanos. Eles festejam, comem e bebem, amam e se casam. Muitos ORIXÁS são citados como presentes desde a criação do mundo. Estes são os ORIXÁS PRIMORDIAIS, os IRUNMOLÉ. Outros eram humanos e transcederam para um estado de existência semidivina.

Maiores detalhes sobre os ORIXÁS poderá ser visto em duas publicações feitas por Fé Curiosa:
Os ORIXÁS MASCULINOS, ou ABORÓS em : https://www.fecuriosa.com/post/abor%C3%B3s-os-orix%C3%A1s-masculinos
Os ORIXÁS FEMININOS, ou YABÁS em:
Além dos ORIXÁS, a religião YORUBÁ crê nos AJOGUNS que são espíritos ou forças negativas contrárias à raça humana causando possíveis doenças e calamidades. São semelhantes aos demônios na religião cristã.

O mito da Criação
A religião possui duas versões para a criação da Terra e dos humanos.
A primeira versão diz que a criação foi um feito de OBATALÁ (OXALÁ), um ORIXÁ PRIMORDIAL, a pedido de OLODUMARÉ.
Verificou-se as condições de habitabilidade dos planetas recém-formados e a Terra foi considerada inviável pois era úmida demais. OBATALÁ foi então enviado e utilizou um molusco que continha algum tipo de solo e o despejou na Terra. Logo surgiu um grande monte na superfície da água. Pouco depois, bestas aladas espalharam a terra criando as colinas e os vales. OBATALÁ saltou para um terreno elevado e deu o nome de IFÉ. Com punhados de terra ele moldou as figuras humanas. OLODUMARÉ então reuniu os gases das profundezas do espaço, transformando-os em uma bola de fogo. Ele a enviou para IFÉ, assando as figuras de barro. OLODUMARÉ liberou o "sopro da vida". Lentamente as figuras se transformaram no primeiro povo de IFÉ.

Outra versão diz que a Terra foi criada pelo orixá ODUDWA, e a humanidade por OBATALÁ (OXALÁ).
OLODUMARÉ orientou OBATALÁ para que criasse a Terra e a humanidade. Avisou que antes ele deveria consultar o orixá ORUNMILÁ, responsável pelo oráculo e deusa das profecias e do destino. OBATALÁ preparou um saco colocando nele uma concha de caracol contendo areia, uma galinha branca, um gato preto e uma noz de palmeira. OBATALÁ consultou ORUNMILÁ que lhe pediu que, antes de criar a Terra, fizesse sacrifícios. OBATALÁ, no entanto, não cumpre o que lhe foi pedido, se embriagando e dormindo no caminho para a Terra. ODUDWA que estava observando tudo que estava acontecendo, pegou o saco e contou para OLODUMARÉ e perguntou a ele se poderia criar a Terra no lugar de OBATALÁ. OLODUMARÉ consentiu. ODUDWA faz então o sacrifício e criou a Terra. OBATALÁ acorda e vê que a Terra tinha sido criada. OLODUMARÉ passa a ele outra missão: a criação da humanidade. OBATALÁ tentou criar os seres humanos a partir dos 4 elementos da natureza. Feito de ar, o ser humano desvanecia, de pedra ficava duro demais, de água ficava mole demais, de fogo, se consomia. NANÃ, orixá ancestral ligada ao mundo dos mortos, o socorre. Retira uma porção de barro do fundo de uma lagoa, fornecendo para OBATALÁ. Com o barro, ele moldou os seres humanos.
Suas Escrituras - Um patrimônio da humanidade
As escrituras yorubás são chamadas ODÚIFÁ. Correspondem a uma coleção de textos oraculares coletados através de transmissões orais. ODÚIFÁ é composta por 256 sessões chamadas de ODÚ. Seu conteúdo reúne provérbios, afirmações e histórias que envolvem todos os aspectos do dia-a-dia. Em 2005 a UNESCO designou as escrituras ODÚIFÁ como uma obra-prima do PATRIMÔNIO ORAL E IMATERIAL DA HUMANIDADE.
A Reencarnação
A reencarnação humana faz parte das crenças yorubás. Porém, ela acontece somente para as pessoas que tiveram uma vida digna. Acredita-se que os maus ancestrais reencarnam em animais e vagam por locais abandonados. Na reencarnação, o gênero não é importante, acreditando-se que ele se altera a cada novo renascimento.
As crianças são vistas como reencarnações de ancestrais da família. Quando a criança nasce como reencarnação, ela traz consigo todo o conhecimento acumulado das vidas passadas. O conceito de reencarnação familiar é conhecido como ATUNWA.
Práticas e Celebrações
As celebrações do povo Yorubá possuem um propósito social evidenciando propósitos sociais além de promover a cultura e rica herança dos costumes ancestrais.
São práticas religiosas individuais:
Fazer orações diárias reconhecendo OLODUMARÉ e os ORIXÁS;
Praticar meditações;
Fazer oferendas básicas aos ancestrais e aos ORIXÁS;
Receber banhos espirituais e rituais de limpeza para remoção da energia negativa e bloqueios;
Honrar seus ancestrais.

Em grupo realizam-se cerimônias específicas para nascimentos, casamentos ou falecimentos, além de iniciações e outros ritos de passagem.
Festivais são comumente realizados envolvendo sacrifícios aos diferentes ORIXÁS que controlam elementos da natureza como a chuva, o sol e a colheita.
Há uma celebração anual de IFÁ que é feita na época da colheita do inhame. Um grande banquete com danças e músicas é realizado.
Há também a celebração de OGUN, também anual, envolvendo sacrifícios. Antes da celebração os sacerdotes fazem votos de abstenção de maldições, brigas e relações sexuais para que sejam considerados dignos de OGUN. No festival, eles fazem oferendas de caracóis, nozes, óleo de palma, pombos e cães para apaziguar a ira destrutiva de OGUN.

Para finalizar, resta acrescentar que:
A expressão AXÉ (ASHE), tão popular no Brasil, é um fundamento essencial na religião Yorubá, significando uma poderosa força vital; uma energia que é encontrada em tudo que é natural
A expectativa Yorubá para seus fieis é que todos procurem alcançar o estado de OLODUMARÉ, chegando ao estágio de união total com o criador;
A vida e a morte são um ciclo contínuo onde o espírito caminha gradualmente em direção à transcendência.
Como a fé é curiosa...
Referências Bibliográficas
Ifayemi, Awodele. Guia completo da espiritualidade Iorubá: Uma jornada para iniciantes, 2025. Disponível em ileifa.org/yorubaspirituality-a-beginners-journey






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