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TAMBOR DE MINAS - Uma religião matriarcal afro-brasileira

  • Foto do escritor: contatogilsonss
    contatogilsonss
  • 17 de dez. de 2023
  • 3 min de leitura

Atualizado: 15 de fev.

Artigo em parceria com Jhonata Javarini.

Muitos escravizados que chegaram Ć s fazendas do MaranhĆ£o entre os anos de 1810 a 1820. Vieram da costa africana situada a leste do Castelo de SĆ£o Jorge da Mina, hoje correspondendo Ć s regiƵes de Gana, Togo, Benin (antiga DaomĆ©) e NigĆ©ria. Eram os entĆ£o chamados NEGRONINAS, conhecidos na Ć©poca como negros MINA-JEJE e MINA-NAGƔ.


Tambor de Minas. Saudação a São Sebastião
Tambor de Minas. Saudação a São Sebastião

Por volta de 1840, três mulheres escravizadas, para manter suas tradições religiosas africanas, fundaram duas casas religiosas para o culto aos VODUNS (divindades africanas de origem Jeje), aos ORIXÁS (divindades africanas de origem IorubÔ) e aos ENCANTADOS (espíritos de pessoas que se encantaram ou vivem em universos paralelos como rios, mar, montanhas, debaixo da terra). Assim se deu a fundação da hoje conhecida religião TAMBOR DE MINAS.


A primeira casa de culto foi a CASA DAS MINAS JEJE, fundada por Maria JesuĆ­na, membro da famĆ­lia real de Daome. Nela, só recebiam as divindades Voduns. A outra casa foi a CASA DE NAGƔ, fundada por duas mulheres: Josefa (NagĆ“) e Joana (Cabinda). A Casa de NagĆ“ cultuada Voduns, OrixĆ”s e Encantados.


Tambor de Minas - Uma religião matriarcal afro-brasileira


O TAMBOR DE MINAS é marcado por ser uma religião matriarcal, onde a mulher possui papel de destaque no sistema hierÔrquico de cada terreiro, em especial nas casas mais tradicionais. Cabe aos homens tocar os tambores ou abatÔs, além de outras tarefas como sacrificar cabritos, galinhas ou galos em determinadas cerimÓnias.


Tambor de Minas. Religião matriarcal. Crédito: Jhonata Javarini
Tambor de Minas. Religião matriarcal. Crédito: Jhonata Javarini

Nos cultos ocorre o transe ou a possessĆ£o. No inĆ­cio do transe a entidade dĆ” muitas voltas ao redor de si no sentido anti-horĆ”rio (chamada GIRA). A possessĆ£o ocorre durante os chamados TOQUES DE TAMBOR. Os devotos tambĆ©m podem incorporar Encantados. HĆ” vĆ”rios tipos de toques de tambor como o TOQUE DA MATA (entidades das matas), o TOQUE DE ƍNDIO (espĆ­ritos de Ć­ndios selvagens), e tambĆ©m o TOQUE DO RITUAL DE CURA, onde os Encantados junto com os EspĆ­ritos dos PajĆ©s se fazem presentes.


Tambor de Minas. Culto a NagƓ
Tambor de Minas. Culto a NagƓ

O TAMBOR DE MINAS possui forte influência do CATOLICISMO, como o sincretismo entre as entidades espirituais e os santos católicos. Muitos terreiros celebram festas católicas como o Natal, a festa de Sta. BÔrbara (Padroeira do Tambor de Minas), e a festa de São LÔzaro (em homenagem aos cachorros).


Uma visita Ć  CASA DAS MINAS (Por Jhonata Javarini)


No centro histórico de São Luis-MA, localiza-se a CASA DAS MINA-JEJE, local tombado pel Instituto do PatrimÓnio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Atualmente a casa é visitada por turistas que têm a curiosidade de conhecer um pouco mais sobre a vasta cultura religiosa do Brasil.


Azulejos identificadores da Casa das Minas. CrƩdito: Jhonata Javarini
Azulejos identificadores da Casa das Minas. CrƩdito: Jhonata Javarini

O anfitriĆ£o, Sr. AntĆ“nio, responsĆ”vel pelas mĆ­dias sociais, manutenção e visitação do templo, detalhou brevemente a história da fundação da casa por Maria JesuĆ­na, que na verdade era a rainha AGONTIMƉ. Ela nasceu em DaomĆ©, uma nação que vendia escravos para o Ocidente, e era esposa do Rei AGONGLO. Quando seu esposo morreu, ela foi passada ao próximo rei - ADANDOZAN - que a exilou por cinco anos e a vendeu como escrava para o Novo Mundo.


NƁ AGONTIMƉ foi batizada no Brasil com o nome de Maria JesuĆ­na. Em 1985 os pesquisadores da UNESCO confirmaram a veracidade dessa história e reconheceram a RAINHA AGONTIMƉ como fundadora da QuerebentĆ£ de ZomadĆ“nu, ou CASA DAS MINAS. Essa história Ć© contada no livro de Judith Gleason: AgontimĆ© e sua lenda, e no filme: Mulher Rei.


Os Voduns Alogue em Dna Maria e Toi Lepon em Dna Deni oferecendo alimentos na festa de Toi Acossi, no Dia de São Sebastião. Crédito: Jhonatha Javarini
Os Voduns Alogue em Dna Maria e Toi Lepon em Dna Deni oferecendo alimentos na festa de Toi Acossi, no Dia de São Sebastião. Crédito: Jhonatha Javarini

Uma das minhas aspirações era poder participar de uma gira. Infelizmente, hoje a casa não realiza mais sessões de incorporações. Por ordem dos Voduns, todos os tambores foram encostados após a morte da matriarca Mãe Deni de Tói Lepon em 2015.


Tambores encostados. Casa das Minas. CrƩdito: Jhonatha Javarini
Tambores encostados. Casa das Minas. CrƩdito: Jhonatha Javarini

O templo possui diversas fotos das sessões realizadas no passado e de suas matriarcas. No local também é guardado os restos mortais delas em grandes jarros, junto ao firmamento na cajazeira sagrada no pÔtio do templo. Na grande cajazeira também estão assentados os Voduns. Por este motivo não é autorizado o acesso de visitantes próximo aos assentamentos.


Cajazeiro no pƔtio das Casas das Minas. CrƩdito: Jhonata Javarini
Cajazeiro no pƔtio das Casas das Minas. CrƩdito: Jhonata Javarini

A CASA DAS MINAS atualmente participa dos festivos tradicionais católicos. Consinto a todos os entusiastas da cultura e religião brasileira que passarem por São Luís a visitar o local. O legado da diÔspra africana estÔ vivo no Brasil e é importante não deixarmos que ela seja esquecido pelas futuras gerações.

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