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TAMBOR DE MINAS - Uma religião matriarcal afro-brasileira

Artigo em parceria com Jhonata Javarini.

Muitos escravizados que chegaram às fazendas do Maranhão entre os anos de 1810 a 1820. eram oriundos da costa africana situada a leste do Castelo de São Jorge da Mina, hoje correspondendo às regiões de Gana, Togo, Benin (antiga Daomé) e Nigéria. Eram os então chamados NEGRONINAS, conhecidos na época como negros MINA-JEJE e MINA-NAGÔ.


Tambor de Minas. Saudação a São Sebastião

Por volta de 1840, três mulheres escravizadas, para manter suas tradições religiosas africanas, fundaram duas casas religiosas para o culto aos VODUNS (divindades africanas de origem Jeje), aos ORIXÁS (divindades africanas de origem Iorubá) e aos ENCANTADOS (espíritos de pessoas que se encantaram ou vivem em universos paralelos como rios, mar, montanhas, debaixo da terra). Assim se deu a fundação da hoje conhecida religião TAMBOR DE MINAS.


A primeira casa de culto foi a CASA DAS MINAS JEJE, fundada por Maria Jesuína, membro da família real de Daome. Nela, só recebiam as divindades Voduns. A outra casa foi a CASA DE NAGÔ, fundada por duas mulheres: Josefa (Nagô) e Joana (Cabinda). A Casa de Nagô cultuada Voduns, Orixás e Encantados.


O TAMBOR DE MINAS é marcado por ser uma religião matriarcal, onde a mulher possui papel de destaque no sistema hierárquico de cada terreiro, em especial nas casas mais tradicionais. Cabe aos homens tocar os tambores ou abatás, além de outras tarefas como sacrificar cabritos, galinhas ou galos em determinadas cerimônias.


Tambor de Minas. Religião matriarcal. Crédito: Jhonata Javarini

Nos cultos ocorre o transe ou a possessão. No início do transe a entidade dá muitas voltas ao redor de si no sentido anti-horário (chamada GIRA). A possessão ocorre durante os chamados TOQUES DE TAMBOR. Os devotos também podem incorporar Encantados. Há vários tipos de toques de tambor como o TOQUE DA MATA (entidades das matas), o TOQUE DE ÍNDIO (espíritos de índios selvagens), e também o TOQUE DO RITUAL DE CURA, onde os Encantados junto com os Espíritos dos Pajés se fazem presentes.


Tambor de Minas. Culto a Nagô

O TAMBOR DE MINAS possui forte influência do CATOLICISMO, como o sincretismo entre as entidades espirituais e os santos católicos. Muitos terreiros celebram festas católicas como o Natal, a festa de Sta. Bárbara (Padroeira do Tambor de Minas), e a festa de São Lázaro (em homenagem aos cachorros).


Uma visita à CASA DAS MINAS (Por Jhonata Javarini)


No centro histórico de São Luis-MA, localiza-se a CASA DAS MINA-JEJE, local tombado pel Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Atualmente a casa é visitada por turistas que têm a curiosidade de conhecer um pouco mais sobre a vasta cultura religiosa do Brasil.


Azulejos identificadores da Casa das Minas. Crédito: Jhonata Javarini

O anfitrião, Sr. Antônio, responsável pelas mídias sociais, manutenção e visitação do templo, detalhou brevemente a história da fundação da casa por Maria Jesuína, que na verdade era a rainha AGONTIMÉ. Ela nasceu em Daomé, uma nação que vendia escravos para o Ocidente, e era esposa do Rei AGONGLO. Quando seu esposo morreu, ela foi passada ao próximo rei - ADANDOZAN - que a exilou por cinco anos e a vendeu como escrava para o Novo Mundo.


NÁ AGONTIMÉ foi batizada no Brasil com o nome de Maria Jesuína. Em 1985 os pesquisadores da UNESCO confirmaram a veracidade dessa história e reconheceram a RAINHA AGONTIMÉ como fundadora da Querebentã de Zomadônu, ou CASA DAS MINAS. Essa história é contada no livro de Judith Gleason: Agontimé e sua lenda, e no filme: Mulher Rei.


Os Voduns Alogue em Dna Maria e Toi Lepon em Dna Deni oferecendo alimentos na festa de Toi Acossi, no Dia de São Sebastião. Crédito: Jhonatha Javarini

Uma das minhas aspirações era poder participar de uma gira. Infelizmente, hoje a casa não realiza mais sessões de incorporações. Por ordem dos Voduns, todos os tambores foram encostados após a morte da matriarca Mãe Deni de Tói Lepon em 2015.


Tambores encostados. Casa das Minas. Crédito: Jhonatha Javarini

O templo possui diversas fotos das sessões realizadas no passado e de suas matriarcas. No local também é guardado os restos mortais delas em grandes jarros, junto ao firmamento na cajazeira sagrada no pátio do templo. Na grande cajazeira também estão assentados os Voduns. Por este motivo não é autorizado o acesso de visitantes próximo aos assentamentos.


Cajazeiro no pátio das Casas das Minas. Crédito: Jhonata Javarini

A CASA DAS MINAS atualmente participa dos festivos tradicionais católicos. Consinto a todos os entusiastas da cultura e religião brasileira que passarem por São Luís a visitar o local. O legado da diáspra africana está vivo no Brasil e é importante não deixarmos que ela seja esquecido pelas futuras gerações.

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