RELIGIÃO NUER. A VENERAÇÃO AOS ESPÍRITOS
A crença religiosa aos espíritos está fortemente atrelada aos acontecimentos pessoais e sociais do povo NUER no Sudão do Sul na África, região do rio Nilo. Os espíritos curam doenças, perdoam os pecados, abençoam os noivos e os bebês que vem ao mundo, resolvem homicídios e interferem nos conflitos entre famílias. Tudo isso graças aos sacrifícios que recebem. Lá, o pensamento religioso traz a ordem social.

Apesar dos sacrifícios e pedidos serem dirigidos aos ESPÍRITOS, para os NUER, DEUS também existe. Estudiosos classificam sua religião como MONOTEÍSTA; outros como POLITEÍSTA. O nome do Deus Nuer é KWOTH. Significa ESPÍRITO DO CÉU. KWOTH é espírito como o vento e o ar são invisíveis e onipresentes. Ele está em tudo. Ele é o motor de todas as coisas. É o criador do mundo. É o autor dos costumes e tradições do povo NUER. Ele instituiu poderes rituais a alguns homens e não a outros. Ele participa dos assuntos humanos por meio de diversos espíritos que povoam o céu e a terra. Os espíritos são chamados de KWOTH NHIAL: Espíritos do céu ou do alto, ou KWOTH PINY: Espíritos da terra ou de baixo.
Devido a religião estar intimamente relacionada aos costumes pessoais e coletivos, é necessário comentar algumas características comuns da sociedade NUER. A posse de gado é o principal status social dos NUER. Cabeças de gado funcionam como dinheiro em negociações. É um objeto de disputa.

O gado é a moeda nos pagamentos de dotes matrimoniais. Outra importante função do gado é ser utilizado como sacrifício em oferendas aos espíritos. Os NUER são POLIGÂMICOS (um homem pode casar com várias mulheres). Ter múltiplas mulheres é um símbolo de riqueza e prestígio. O casamento dos NUER depende diretamente do dote. O noivo deve transferir um significante número de cabeças de gado para a família da noiva. A sociedade pratica o LEVIRATO, ou seja, quando um marido morre, a viúva passa a viver com o irmão do falecido.
OS ESPÍRITOS NUER
Os espíritos do céu - do alto
Os espíritos do alto são os mais poderosos pois estão mais perto de Deus. Eles podem ser descritos como deuses ou divindades menores. São concebidos tanto como seres distintos quanto como diferentes manifestações de Deus. À eles, o povo NUER dirige muitos sacrifícios, principalmente aqueles destinados a cura de doenças. Entre os espíritos do alto destacam-se:
DENG - O maior dos espíritos do alto. Está associado às doenças. Possui dois filhos: DAYIM E DHOL;
TENY - É o artífice de Deus. Significa o Sol após a chuva;
DIU - Associado ao Sol e à pestes bovinas;
COL - Associado à chuva, aos relâmpagos e a um rio que corre nos céus;
RANG - Associado a animais selvagens;
MANI - Associado à guerra, e outros

Os espírito da terra - do abaixo
São os pequenos espíritos, mas também muito influentes na vida e no cotidiano dos NUER, como os espíritos do alto. Os espíritos da terra podem ser: os espíritos totêmicos, os espíritos da natureza, e os fetiches.
Espíritos totêmicos são venerados por pessoas, famílias e principalmente por linhagens específicas do povo NUER. Normalmente, os espíritos totêmicos são representados por animais, como por exemplo: A linhagem do clã X respeita os leões como totem. Um número considerável de linhagens respeitam os répteis, outras respeitam o lagarto ou o crocodilo. É comum pequenas linhagens ou famílias respeitarem as cobras ou as tartarugas.

Clãs ou famílias podem também considerar árvores e plantas como um espírito da terra, como a maça do mar morto (Calotropis Procera), o Tamarindeiro e a Figueira-Brava (Ficus Sycomorus). Algumas linhagens respeitam os rios e os córregos como o Rio Nilo e o Rio Nyanding. Fetiches são pequenos bonecos de madeira e são de caráter de um espírito pessoal.
É importante acrescentar que o culto e a veneração não é para o animal, árvore, planta, rio ou fetiche em sí, mas dirigido ao espírito que neles habita.
A VIDA NUER COM OS ESPÍRITOS - A importância dos sacrifícios
Sacrifícios como cura de doenças
A doença grave ou súbita é vista como uma ação do espírito. É uma condição espiritual da pessoa e só pode ser curada através da expiação (o sacrifício) pelo pecado que a originou. Para curar o enfermo, utiliza-se o trabalho de um PROFETA (um sacerdote), que faz a identificação de qual espírito está causando a doença. Quando o espírito é identificado pelo PROFETA, se oferece a ele um SACRIFÍCIO para apaziguá-lo. A recuperação do doente significa que o espírito o libertou. O animal de sacrifício por excelência é o BOI, mas também podem ser utilizados carneiros, cabras ou bodes castrados. Quando um animal é sacrificado, existe a ideia de que o mal passa o animal, em seguida vai para a terra junto com seu sangue.

Sacrifícios como Luto
Existe um grande temor em relação aos fantasmas dos mortos. O medo é que o espírito do falecido tente levar o conjuge, filhos e até mesmo o gado. Logo após o falecimento, o cadáver é supultado em posição fetal numa cova com 1,20 m de profundidade, enrolado em um couro de vaca. Parentes e amigos deixam o cabelo crescer e temporariamente não usam seus adornos corporais. No final de 6 meses após a morte de um homem, ou 3 meses após a morte de uma mulher, bois são sacrificados para um banquete. Após o banquete os enlutados raspam a cabeça e voltam a usar seus adornos pessoais.
Sacrifícios na resolução de Homicídios e Dívidas de Sangue
Sacrifícios são também realizados para apaziguar e resolver casos de homicídios. Somente os PROFETAS ou Sacerdotes podem conduzir o sacrifício e fazer as partes chegarem a um acordo, muitas vezes, com a compensação em cabeças de gado. Caso haja risco de vingança de sangue, o homicida busca refúgio na casa do sacerdote. Sua família e seu gado são transferidos para a casa de parentes, deixando sua morada deserta. A resolução mediante o pagamento de uma compensação em gado à família do morto e seus parentes, impede que se busque vingança. Hoje, este sistema é reconhecido inclusive judicialmente.

Sacrifícios nas mudanças de status social
Sacrifícios com animais acompanham os momentos de mudança do status social. Inclui-se os casos pessoais como o nascimento, a passagem de criança para adulto e o casamento; e também, as confraternizações entre grupos sociais. Nestes casos, os sacrifícios têm caráter festivo e eucarístico.
OUTROS ASPECTOS CURIOSOS DA SOCIEDADE NUER
Há pessoas que detém a poder de fazer adivinhações e também atender a pedidos pessoais. Elas são chamadas de "dono de um espírito". Seus poderes vêm de algum espírito menor. São os espíritos-familiares. A adivinhação é feita com o lançamento de conchas de mexilião sobre a superfície de uma cabaça, interpretando-se a posição como elas caíram. Fazem também outros tipos de ajuda como recuperar a esposa que fugiu, cura para mulheres estéreis ou homens impotentes, além de bezerros doentes.
Os NUER consideram os gêmeos são uma única pessoa, ou melhor, possuem uma única personalidade. Quando um gêmeo masculino casa, o outro deve participar junto dos atos rituais. Não se realiza cerimônia fúnebre quando um dos gêmeos morre. As mulheres gêmeas devem se casar no mesmo dia;
Se um homem morrer sem deixar filhos para continuar seu nome, um irmão ou parente próximo se casa com uma mulher usando o gado do falecido. Legalmente, os filhos desta união pertencem ao homem morto (fantasma) e não ao pai biológico;
Uma mulher rica ou estéril que se tornou herdeira da linhagem pode pagar o dote em gado para se casar com outra mulher. Ela escolhe um homem (parente ou amante) para engravidar sua esposa, mas, social e legalmente, é considerada o "pai" e chefe da família daquelas crianças;
Acredita-se que os mortos tenham os mesmos sentimentos que tinham quando vivos. Eles se ressentem das injustiças a eles praticadas, nutrindo rancor àqueles que os prejudicaram. Para uma pessoa se defender dos efeitos destas maldições, é necessário oferecer um sacrifício a Deus e fazer uma reparação ao espírito do falecido.
Como a fé é curiosa.....
Referências Bibliográficas
Evans-Pritchard,E.E.NUER RELIGION. Clarendon Press, Oxford, 1958 - Professor de Antropologia Social da Universidade de Oxford;
https://www.laulima.hawaii.edu




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