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BESTIÁRIOS - A moral cristã explicada através de animais fantásticos

Atualizado: 21 de mar. de 2023


Além de funcionarem como uma "enciclopédia natural", os bestiários eram livros que durante a Idade Média foram utilizados pela IGREJA CRISTÃ como instrumentos de ensinamentos morais. Nesta época, a Igreja era a detentora suprema da explicação de tudo que ocorria no mundo.

Mosáico Romano - Século I
Mosáico Romano - Século I

Cada MONSTRO, BESTA ou ANIMAL descrito nos bestiários era acompanhado de uma LIÇÃO MORAL comentada. Interpretava-se cada animal como sendo uma evidência de DEUS para o mundo, pois neles estariam contidos os "comportamentos que convidavam a refletir sobre as verdades bíblicas". Para cada PLANTA, PEDRA, ANIMAL, BESTA ou MONSTRO, sempre era associado um VÍCIO ou uma VIRTUDE, explorados nos ensinamentos morais.

Mantícora - Bestas com face de homem, corpo de leão e o rabo com ferrão de escorpião
Mantícora - Bestas com face de homem, corpo de leão e o rabo com ferrão de escorpião

Apesar de nos dias de hoje tudo isso parecer "sem sentido", os bestiários foram culturalmente muito importantes para a época. Foram o segundo tipo de publicação mais lida na Europa. Só perdia para a Bíblia.

Unicórnio - Figura no Bestiário de Aberden
Unicórnio - Figura no Bestiário de Aberden

Por que toda esta popularidade?


A compreensão se dá quando se analisa o contexto cultural da época medieval.

Pouco de conhecia do mundo, a ciência não era empírica, o conhecimento vinha de poucas observações e experiências práticas e era uma época que se dava muito valor para as crenças, lendas e mundos imaginários. O universo intelectual e cultural medieval inspirava-se nas fontes clássicas para impulsionar sua ciência. Até então, as principais fontes de conhecimento seram as SAGRADAS ESCRITURAS. Para o medievo, o ser sábio era aquele que seguia e usava a palavra de DEUS.

Adão nomeando o Leão - Fisiológico de Berna - Séc. IX
Adão nomeando o Leão - Fisiológico de Berna - Séc. IX

O termo "BESTAS" foi citado em antigas versões da Bíblia.

Em Gênesis 1:26 - Deus criou o homem "a sua imagem e semelhança, para que ele presida os peixes do mar, as aves do céu, as bestas e a todos répteis que se movem sobre a terra...". Em Gênesis 2:19 - "... e o nome que Adão pôs a cada animal é o seu verdadeiro nome...". As tradições do Velho Testamento contribuiram bastante para justificar a existência dos bestiários. Também, o Novo Testamento em muitas citações: a pomba que surge no batismo de Cristo no rio Jordão representando o espírito de Deus; os cães que lamberam as feridas de Lázaro; a comparação que Cristo fez do Rei Herodes com uma raposa.

Hiena - Figura do Bestiário de Aberden
Hiena - Figura do Bestiário de Aberden

Além do legado bíblico, obras de autores da antiguidade clássica também se tornaram fontes dos bestiários. Destaque especial às obras de três autores:

  • Aristóteles que estudou de maneira vasta os animais, e é considerado como o verdadeiro fundador da zoologia;

  • Heródoto que no Séc. V a.C descreveu muitos animais não conhecidos pelo povo;

  • Clésias de Cnidos, um médico grego que no Séc. V a.C escreveu um tratado com várias ideias e lendas do mundo grego e persa. Entre eles os GRIFOS, UNICÓRNIOS, CINOCÉFALOS (homens com cabeça de cachorro) e MANTÍCORAS (bestas com face de homem, corpo de leão e rabo com ferrão de escorpião).

Luta entre Grifos e Panteras
Luta entre Grifos e Panteras

O primeiro bestiário escrito foi o livro PHYSIOLOGUS no Séc II d.C em Alexandria, com autoria anônima. Continha menção de 49 animais, a maioria selvagens e animais fabulosos. Os manuscritos do Physiologus foram compilados e reorganizados pelo BISPO ISIDORO DE SEVILHA no livro XII intitulado "Os animais" da coleção "Etimologias" editada por ele. O Bispo anexou para cada descrição de animais, as lições edificantes cristãs. A partir daí, os demais bestiários mantiveram as lições morais.

São Cristóvão cinocéfalo
São Cristóvão cinocéfalo

A designação "BESTIÁRIO" foi utilizada a primeira vez na Inglaterra no Séc. XII na obra de Philippe de Thaon. É o mais antigo bestiário medieval. Possui 3.194 versos de animais, aves e pedras. É aquele que mais se aproxima do Physiologus.

Sátiro - Figura no Bestiário de Aberden
Sátiro - Figura no Bestiário de Aberden

No início do Séc. XIII surge o "Bestiaire" de Gervaise com 1.280 versos rimados. Entre 1210 e 1211, Guillaume Le Clerc publica "Bestiaire" ou "Le Bestiaire Divin", com 3.426 versos. Entre 1210 e 1218, Pierre de Picard editou um bestiário com duas versões; uma curta com 38 capítulos e outra longa com 71 capítulos.

Crocodilo - Figura no Bestiário de Rochester
Crocodilo - Figura no Bestiário de Rochester

Outros bestiários foram editados ao longo do tempo como o "Fisiológico de Berna", o "Bestiário de Rochester", o "Bestiário de Aberden", e o "Bestiário de Oxford".

Leopardo - Figura no Bestiário de Aberden
Leopardo - Figura no Bestiário de Aberden

A força do Iluminismo que assolou a Europa desde o começo do Séc. XVII fez com que os bestiários fossem aos poucos perdendo sua importância e popularidade.


Para finalizar, resta registrar que o termo "BESTIÁRIO" era também utilizado na Roma Antiga para denominar homens que combatiam animais ferozes nas arenas.



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